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Alegorias da Maldição será lançado dia 28, na Livraria Cultura

Alegorias da Maldição será lançado dia 28, na Livraria Cultura

O historiador e professor da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, Francijési Firmino, lança, na próxima quinta-feira, 28, o livro Alegorias da Maldição, a escrita fantástica de José Alcides Pinto e o Ceará (Edições Demócrito Rocha, R$ 29), na Livraria Cultura, a partir das 19 horas. Um bate-papo entre o autor e o editor-adjunto da EDR, Raymundo Netto, no auditório da livraria, antecipa a noite de autógrafos. 
O trabalho de pesquisa do historiador Francijési Firmino mergulha nos elementos fantásticos¬ com os quais José Alcides Pinto traduz as tensões entre o moderno e tradicional no Ceará. Resultado do seu trabalho de mestrado, o autor chegou a conviver com José Alcides Pinto – morto por causa de um acidente em 2008. Dos encontros, o pesquisador guarda o impacto que José Alcides teve sobre ele: “Essa foi a melhor parte na feitura do trabalho e, também, uma das mais problemáticas quando foi necessário dar um formato final ao texto. José Alcides é/foi absurdamente, resguardando a ambiguidade da palavra, fascinante, tanto como pessoa, quanto em sua obra”. O livro do historiador tem trânsito em várias áreas do conhecimento, entre elas a Literatura e a Filosofia. A seguir entrevista com o autor de Alegorias da Maldição.

 

Regina Ribeiro (jornalista, editora das Edições Demócrito Rocha)
Pergunta – Logo na apresentação do seu livro, o historiador Durval Muniz defende que a literatura está “sempre povoada de fantasmas” e que ela – a Literatura – trata das fantasias de uma época, de uma sociedade, de uma cultura. Como você acredita ter lidado com os fantasmas que povoam a literatura de José Alcides Pinto?
Francijési Firmino – Assumindo sua literatura como fantástica, ele – Durval – quer valorizar o texto como criação, como imaginação. É desse modo que foi um grande estranhamento na Universidade, o fato de eu querer produzir um trabalho em História partindo e tendo como principal documento a literatura fantástica, em outras palavras, um documento que assume de saída não querer contar as coisas “tal como aconteceram”, nem mesmo em termos de possibilidade, “como poderiam ter acontecido”. O próprio José Alcides mostrava seu estranhamento com relação a minha proposta, mesmo já existindo outro trabalho, em perspectiva bem diferente, do historiador Nuno Gonçalves que pesquisou, como eu, os livros da Trilogia da Maldição. Para mim, e foi o que defendi no livro, a literatura fantástica de José Alcides Pinto emerge na justaposição de um conjunto de referências estéticas com sua leitura das modernidades e modernizações que começaram a ser propaladas em meados da década de 1950, no Ceará. A Trilogia da Maldição seria uma tradução fantástica desses processos em curso, seria uma escrita embrenhada nas tensões entre as novidades de sua época e o envelhecimento de signos que até então pareciam dizer o que era o Ceará. José Alcides gostava de fazer uma identidade que parecia caducar sobre o Ceará retornar em sua literatura por meio do delírio, ou seja, apontava que aquilo sobre o qual escreveu não estava mais no plano do visível, são fantasmas que o perseguem, defuntos aos quais ele dá um último fôlego para que sobrevivam ao menos no espaço de seu texto.

Pergunta – Como você se tornou leitor de José Alcides e como se deu o interesse para pesquisar sua obra?
Francijési Firmino – Como a maioria dos leitores cearenses que conhecem algo da obra de José Alcides, eu também comecei pelo segundo livro da Trilogia da Maldição, Os Verdes Abutres da Colina, ainda na adolescência. Eu tinha entre 16 e 17 anos quando li esse livro, o que já faz mais de uma década. Na graduação em História, no momento de escolha do tema para o trabalho monográfico, não tenho muita clareza sobre as motivações que me levaram a pesquisar a Trilogia da Maldição, somente que a narrativa fantástica me exerce grande fascínio. Hoje, observo que a pesquisa sobre questões que fogem a noção de verossimilhança, em sua acepção mais ortodoxa, é urgente, afinal, vivemos um momento em que o debate multicultural se encontra cada vez mais ávido, trazendo a baile um conjunto de elementos que antes foram classificados como meros delírios de populações “incivilizadas”. Além disso, o fantástico é um interesse contemporâneo, vide os filmes que fazem muito sucesso de bilheteria e os livros que estão nas listas dos mais vendidos. É necessário discutir esse fenômeno. E é necessário ainda ressaltar que a chave de leitura normalmente usada para a compreensão desses registros fílmicos e literários atuais, unicamente como modo de “re-encantamento do mundo”, é no mínimo inocente. O fantástico tem dimensões político-sociais sobre as quais precisamos refletir, não é somente um meio de entretenimento, ou modo de dar um tom mágico a vidas descoloridas, está para além disso. Significa uma reorganização dos nossos códigos da realidade, do nosso modo inclusive de produzir a verdade e aceitá-la. Deparamo-nos cada vez mais com grupos sociais que não se preocupam tanto com os comuns suportes da verdade, como a ciência, a tradição e a memória, isso é perceptível religiosa, artística e mercadologicamente. Talvez compreender as lógicas e razões que parecem produzidas na mais absoluta aleatoriedade seja um dos desafios que o pesquisador em ciências sociais venha a cada dia se defrontar com maior intensidade e, nesse caminho, a literatura fantástica é um elemento ao qual precisamos voltar nossas atenções.

Pergunta- Você chegou conviver um pouco com o escritor. Quais as principais impressões que você construiu dele?
Francijési Firmino – Essa foi a melhor parte na feitura do trabalho e, também, uma das mais problemáticas quando foi necessário dar um formato final do texto. José Alcides é/foi absurdamente, resguardando a ambiguidade da palavra, fascinante, tanto como pessoa, quanto em sua obra. Deveria ter prestado atenção aos cuidados que teve Paulo de Tarso, o Pardal, quando escreveu seu livro sobre José Alcides, em me afastar do autor para tentar não me contaminar com as versões interpretativas dele sobre si. Num primeiro momento de escrita, me vi profundamente confuso entre o que José Alcides falava sobre os seus textos e as exigências de um trabalho acadêmico. Foi um doloroso desprendimento o que tive de, aos poucos, constituir para tentar pensar o trabalho. Esse processo foi se tornando mais fácil, quando, rememorando nossas conversas, acabei percebendo que José Alcides foi uma das personalidades mais plásticas que eu já conheci, que pensava e repensava, dizia e desdizia inúmeras vezes coisas sobre si e sobre a sua obra. José Alcides parecia esconder um coletivo dentro de si, era muitos e, ao mesmo tempo, nenhum, um ator de si, como gosto de pensar no terceiro capítulo do livro, que escrevi já depois de ter defendido a dissertação de mestrado, em 2008.

 

Pergunta – Você trabalha neste livro com a hipótese de José Alcides ter construído o fantástico na literatura desenvolvida no Ceará. Quais os elementos do fantástico na literatura de José Alcides Pinto? Que diálogo ele faz com o fantástico da literatura tradicional?
Francijési Firmino – É difícil enumerar quais são os elementos fantásticos na obra de José Alcides, pois, ao que parece, uma das grandes características desse modo de escrita têm sido a aleatoriedade. Por exemplo, José Alcides mistura no texto sua aldeia natal, no interior do Ceará, Alto dos Angicos de São Francisco do Estreito, com as histórias da Antiguidade Clássica etc. Acredito que Nuno Gonçalves estava certo ao pensar que a grande questão de José Alcides tenha sido a história, no sentido da transitoriedade da vida e das coisas. É da certeza da morte e da crença na condição mesquinha do humano, que José Alcides retira o fundamento de seu fantástico: nós não teríamos meios para alcançar a verdade das coisas, tudo que faríamos seria fruto da ilusão, seria delírio, seria fantástico. Em outros pontos, contudo, ele trama diálogos claros com as temáticas que se convencionaram na literatura sobre o Nordeste: o coronel, o místico, o louco, a natureza, entre outros. É nesse limiar entre elementos regulares nos discursos sobre o Nordeste e a descrença na possibilidade de um verdadeiro que se produz o fantástico de sua literatura.

 

Pergunta – Apesar do livro Alegorias da Maldição ser o resultado de um trabalho acadêmico, é visível a linguagem que foge do academicismo e pode ser lida quase como literatura, o que facilita – e anima – o trabalho do leitor. Você fez seu trabalho já pensando nessa leitura para não estudiosos de literatura ou história?
Francijési Firmino – Desde que vi o texto final do meu trabalho, tive o medo de ser excessivamente hermético, de difícil compreensão até mesmo para historiadores e críticos literários. A forma da escrita deriva muito do estilo e, até mesmo, da formação, tendo desde a graduação estudado o diálogo entre história e literatura. Já ouvi historiadores reclamando que meu texto tem fortes elementos filosóficos e literários, já ouvi pessoas com formação em letras falando da minha, às vezes, excessiva preocupação com os contextos. Então parece que realmente estou numa zona de difícil definição. Ainda, contudo, me reconheço um historiador, meio herético, devo confessar. Já é bem aceito na disciplina história uma escrita mais metafórica, que deixe de lado o preciosismo conceitual, que nos trabalhos acadêmicos produzia uma narrativa que muito se aproximava de um estilo tratadístico. Minha preocupação, como atualmente se pensa na pesquisa em história, foi que os conceitos funcionassem para compreender o objeto de pesquisa, por isso, eles aparecem misturados com a fonte, no caso, os livros de José Alcides, os jornais etc. Talvez seja isso que faça parecer um texto com poucos “academicismos”. Fico lisonjeado com seu comentário.

 

Pergunta – Outro ponto importante do teu trabalho é o entrecruzamento de disciplinas, que você transpõe de forma elegante e tranquila. Quais as áreas de interesse que o livro Alegorias da Maldição abrange?
Francijési Firmino – A literatura fantástica ainda é pouco discutida pela história. Desse modo, para compreendê-la tive de tecer intensos diálogos, além da história, com a teoria literária e a filosofia – está última, especialmente por meio de Walter Benjamin –, um pouco com a linguística e a psicanálise. Além das disciplinas, acredito que o trabalho possa servir, de algum modo, para compreender uma arte que se organiza entre os fins dos anos de 1950, de caráter alegórico, que não teve mais a pretensão de representar as coisas tal como elas seriam, mas de produzir um jogo criativo que faz a linguagem vacilar em sua capacidade de dizer as coisas, de uma geração que tornou a linguagem a sua grande questão nas artes.

 

Pergunta – Você trata no seu trabalho das tensões vividas pelo Ceará e que foram matéria-prima para o fazer literário de José Alcides Pinto. Na sua opinião, qual a maior ou principal contribuição que o escritor oferece para uma leitura do Ceará e do Brasil em meados do século XX.
Francijési Firmino – Não sei se consigo pensar em termos de contribuição. No livro, assumo uma posição ambivalente ante a obra de José Alcides. Por um lado, tendo a concordar com ele de que o Ceará não tem uma identidade fixa, que aquilo que se chamou de autêntico e natural, foi uma convenção estabelecida, em grande medida, pela literatura e outras formas discursivas. E aqui, aponto para uma dívida intelectual com o trabalho e as indicações do historiador Durval Muniz Albuquerque Júnior, que inclusive prefacia o livro. Por outro lado, tendo a discordar de José Alcides quando ele leva essas considerações a um extremo, ao ponto de afirmar a impossibilidade do saber pelo humano. Essa é uma postura muito presente na literatura alcidiana, que, acredito eu, é produzida em meio as suas leituras do barroco e, estranhamente, de Albert Camus, que nunca defendeu isso. Percebo esse modo de pensar como problemático a medida que não concebe a possibilidade de se construir sentidos para a vida, que não sejam moral, religioso, ou somente natural. Fico ponderando como uma pessoa, exaustivamente criativa, como ele, não concebia em sua obra a importância da criação, mesmo afirmando constantemente que essa era a única possibilidade do sentido. Perceber que não há uma essência das coisas, a consciência da condição transitória dos entes, não significa cair na armadilha de acreditar que, por isso, elas não mais tenham valor, ou sentido – afinal de contas, o sentido e o valor são atribuições humanas e não precisam de uma “essência” para existir. Penso esse raciocínio alcidiano como perigoso, pois desautoriza toda preocupação ética. Às vezes, fico refletindo se esse traço em sua obra não passava de uma tendência que Alcides tinha para a polêmica, haja vista que sempre o percebi como muito rígido em algumas posturas.

Pergunta – A estética literária desse escritor influenciou de alguma forma a literatura de outros escritores?
Francijési Firmino – Acredito que sim. E não só em relação à Trilogia da Maldição. A dimensão maldita, meio surrealista, alegórica e fescenina de José Alcides interferiu fortemente na literatura cearense. É difícil medir isso em termos de influência, pois essas referências podem ter se disseminado por diversas vias. É inegável, contudo, que esses elementos têm se tornado profícuos na escrita de romances e poemas.

Pergunta – Como você analisa a leitura que é feita hoje da obra de José Alcides Pinto tanto na prosa, como na poesia?
Francijési Firmino – José Alcides costumava me contar um sem número de histórias sobre uma espécie de “escambo dos elogios” comum a critica literária cearense (acredito que não somente no Ceará!), com fortes características impressionistas e, por vezes, meramente apologéticas. Há muitos textos que realmente são assim, e não vou citar nomes. É interessante como alguns desses críticos (que na maioria das vezes são também literatos), por seu intenso contato e experiência com a literatura, tinham “sacadas” que me foram muito importantes, num texto que claramente havia sido feito às pressas, com dois ou três parágrafos. Já há sobre o autor trabalhos muito sérios, com rigor de análise (e, por isso, não se entenda enrijecidos em método). Novamente, não vou citar nomes, pois meu esquecimento, aqui, pode cometer pecados. De modo geral, os livros que se detiveram unicamente a José Alcides são muito bons. Em relação aos artigos, a minha triagem foi mais criteriosa, mas sem dúvidas também há muita coisa boa. Concebo apenas que é necessário rediscutir o modo como se pensou a biografia de José Alcides Pinto como um anexo da Trilogia da Maldição, acho que essa fórmula interpretativa já deu o que tinha.

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